domingo, 24 de fevereiro de 2013

Novos talentos de TI querem trabalhar por conta própria


Entrevista da Revista MaisTI com o Prof David Stephen 



Novos talentos de TI querem trabalhar por conta própria

Em entrevista exclusiva ao Mais TI, David Stephen, explica porque é cada vez maior o número de jovens da área de TI que buscam abrir seus próprios negócios. David, que é fundador do Ibratec e da Unibratec - instituições de ensino referência em TI no Nordeste - também fala das vantagens e desvantagens para os novos empreendedores.

LG – Segundo estudo realizado pelo Instituto de Pesquisas Ilumeo, no Campus Party – maior evento digital brasileiro –, 40% dos jovens que estudam ou trabalham com Tecnologia da Informação (TI) querem abrir o próprio negócio. Como fundador da Unibratec, a primeira instituição universitária de nível tecnológico do Nordeste, você acredita que essa pesquisa aponta para alguma tendência no mercado de TI nos próximos anos?

David Stephen: Sim, não apenas na área de tecnologia, mas em diversas outras áreas observa-se este fenômeno.  Especialmente na área de TI, em que não há uma regulamentação das profissões, e os jovens procuram as instituições de ensino muito mais para obterem conhecimento, do que a certificação propriamente dita. Fato que não ocorre com as graduações mais tradicionais como Direito, Medicina e Engenharias.  

Se lançarmos um olhar bifocal sobre este fenômeno, encontraremos respostas nos dois lados da mesa. Para as empresas, trabalhar com mão de obra terceirizada e fornecedores do tipo PJ (Pessoa Jurídica) tem sido cada vez mais a opção adotada para assegurar a competitividade.  Do outro lado, os profissionais encontram na iniciativa privada melhores perspectivas de remuneração e sucesso.  Ao nos inspirarmos nas maiores e mais arrojadas empresas do mundo, como Google, Apple e Microsoft, percebemos nitidamente esse movimento.  Ainda que não utilizem mão de obra terceirizada nos moldes das empresas brasileiras, essas corporações tratam seus colaboradores como empresas, com participações substanciais nos resultados dos produtos.  Eu acredito que é para lá que estamos caminhando.  Se não vamos operar 100% com mão de obra terceirizada, certamente teremos intraempreendedores ocupando as vagas dos, até então, conhecidos como "funcionários de carreira".

LG – Em sua opinião, o que estaria levando os jovens formados em TI a abandonarem o emprego formal para trabalharem por conta própria?

David Stephen: Sem dúvida o alto índice de remuneração possível na atividade empreendedora é a resposta a esta pergunta.  Como funcionário de carreira, um profissional literalmente troca tempo por dinheiro.  Como temos um número limitado de horas úteis para trocar por dia, no máximo 17 horas, não dá para pensar em ganhar mais do que possa ser gerado com esses honorários.  

Mas quando falamos em atividade empreendedora, descortinam-se inúmeras oportunidades de ganhos escalares, em que o fator tempo não é mais o limitador para o rendimento, uma vez que é possível multiplicar-se cada hora de trabalho através de gerenciamento de projetos empreendedores. 

Para exemplificar, vamos tomar por base uma situação-problema bastante peculiar: um web designer recém-formado pode receber um salário de até R$ 3.000,00 para ocupar seu tempo desenvolvendo sites para uma única empresa.  

Em outra situação, esse mesmo profissional pode ganhar cerca R$150,00 por mês para desenvolver e manter um site de seu cliente.  Se ele tiver 20 clientes, o que não é tão difícil assim, poderá faturar os mesmos R$3.000,00 com bem menos trabalho, e ainda poderá ampliar para mais 20 ou 30 clientes, assegurando remunerações cada vez maiores.

LG – Explique um pouco como funciona a empregabilidade e qual o grau de influência dela nesse processo de empreendedorismo dos jovens talentos de TI? 

David Stephen: O termo "empregabilidade", bastante empregado pelas consultorias de RH nos últimos 20 anos, já não representa o estado da arte em se tratando de Recursos Humanos.  Esse termo está sendo substituído por outro, bem mais abrangente e adequado às novas realidades do mercado global: a "Trabalhabilidade".  

Dizemos que Trabalhabilidade = Empregabilidade + Intraempreendedorismo.  Isto é, para se manter no páreo das grandes seleções e empresas,  o profissional do século 21 tem que apresentar mais do que as competências técnicas e habilidades de marketing pessoal.  

É necessário ser um intraempreendedor, encarando a empresa onde trabalha como um cliente, os colegas e chefias como parceiros, e a carreira com um grande projeto a ser gerenciado.  Este perfil comportamental é hoje o mais desejável pelas empresas mais exigentes do mercado, e já é uma tendência entre as empresas de médio a grande porte no Brasil.  

O funcionário intraempreendedor não espera acontecer - ele faz a hora.  Ele não executa uma ordem sem a submeter ao seu clivo de consciência, perguntando sempre, a si mesmo e aos outros, o que pode ser melhorado e racionalizado.  O intraempreendedor sempre acredita que pode fazer melhor.  Ele não teme seus competidores, ao contrário, alia-se a eles em sistema de parceria.  

Este novo profissional não enxerga seu trabalho de forma departamentalizada. Ele visualiza o todo e compreende bem a importância e o impacto de seu trabalho para o sucesso de sua organização.  Estamos falando de um profissional que não tem medo de ser demitido, pois sabe que tem um monte de empresas que irá disputá-lo a tapas.  É esse o conceito expandido do termo "empregabilidade" no III milênio.

LG – Para você, quais são as principais barreiras que os formandos em TI enfrentam ao tentarem abrir seu próprio negócio?

David Stephen: Abrir seu próprio negócio não é bem a dificuldade que eu enxergo para os profissionais de TI.  Nunca foi tão fácil abrir uma empresa ou ser um microempreendedor individual.  Os problemas começam depois que a empresa entra em operação, começando pela carga tributária e burocracia fiscal, que põe o Brasil entre os mais ineficientes do bloco dito "emergente". 

No caso particular da TI, temos no Brasil um problema relevante: as leis de marcas e patentes.  Patentear um software ou serviço de tecnologia é uma missão praticamente impossível. A lei é arcaica e o INPI não dispõe de equipe e recursos tecnológicos que garanta a devida proteção da propriedade imaterial.  

Além disso, há poucos advogados especializados nessa área, o que torna o registro de uma patente demasiadamente caro e desgastante, sobretudo quando esse processo acarreta em disputas.  Outra característica que dificulta bastante a vida do pequeno empresário de TI é a deficiência gerencial.  Os informáticos, como são conhecidos os programadores, analistas de sistema e de suporte, entre outros, não vivenciam muitas disciplinas de gestão em suas graduações e, aliado ao seu comportamento cartesiano e introspectivo, propiciam uma das mais elevadas taxas de mortalidade entre as empresas de TI (cerca de 40%, até o segundo ano de vida).  

E para completar o cenário hostil com que se deparam os microempresários de TI, temos a dificuldade na obtenção de recursos para o financiamento de seus projetos.  Fatores como a exigência de aval e/ou garantias reais (ativo imobilizado) inviabilizam pequenos grandes negócios que simplesmente deixam de surgir por falta desses recursos financeiros.  

Mas, nem tudo está perdido. Por outro lado, empreender na área de TI é bem mais simples e rápido do que nas áreas da velha economia.  É possível abrir, operar e gerenciar um negócio sem sair de casa.  Quer seja na construção de portais, quer no desenvolvimento de programas de computadores, milhares de pequenos negócios estão crescendo sem a necessidade sequer de ter uma sede física.  Os escritórios virtuais se multiplicam pelo Brasil a fora, fazendo da Web a nova ambiência de negócios do século 21.  Com isso se conclui que, se há dificuldades para a abertura de um negócio no mercado de TI, as dificuldades são bem maiores em outras áreas.

LG – Por que os benefícios ofertados pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) já não são mais atrativos aos recém-formados em TI?

David Stephen: Essa é uma boa pergunta.  Vamos apontar alguns pontos críticos que deixam a Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS) um objeto cada vez mais em desuso:

a) A Previdência Social não representa mais uma segurança substancial para quem pensa em, um dia, se aposentar;

b) Os encargos sociais e descontos sobre o salário-base são altíssimos, tanto para a empresa quanto para o empregado;

c) A carga tributária e os benefícios em excesso (como férias, décimo terceiro etc.) deixam o funcionário de carreira bastante vulnerável às intempéries do mercado.  Qualquer margem de prejuízo que uma empresa venha a ter, a primeira coisa que passa na cabeça do gestor é a reengenharia, que, quer queira quer não, sempre passa por demissões para redução de custo.  Assim, uma relação empregatícia pela CLT está longe de representar alguma estabilidade para o colaborador;

d) O fato da área de TI ser considerada "meio" para a maioria das empresas (usuárias de tecnologia) deixa mais uma vez o funcionário de carreira em situação de vulnerabilidade, sujeito à redução do contingente para cortes de gastos.  Já para as empresas em que a área fim seja TI (uma minoria), o funcionário de carreira tende a ser bastante valorizado.

Boa parte dos colaboradores e gestores de empresas de TI fazem acordos demissionários para serem convertidos em prestadores de serviços, com contratos de Pessoa Jurídica.  Essa opção vem sendo utilizada sistematicamente por empresas de todos os portes como alternativa à obsolescência da CTPS e da CLT.

LG – Fala-se muito em apagão de talentos no mercado brasileiro de TI. Você acredita que esse cenário pode estar sendo influenciado pelo fato dos jovens profissionais estarem investindo no próprio negócio? 

David Stephen: De modo algum.  Como disse anteriormente, o fato de um jovem recém-formado abrir seu próprio negócio não significa que ele não venha a ocupar uma vaga de trabalho.  Essa vaga, como discutimos na resposta à pergunta número cinco, pode ser ocupada por uma empresa prestadora de serviços, desempenhando o mesmo papel do funcionário de carreira, e talvez de forma mais competitiva.  O apagão de talentos existe sim, mas principalmente pela desarticulação do setor educacional com o produtivo. 

Infelizmente nossas universidades estão se preocupando mais em formar mestres e doutores do que com a formação técnica.  Nos Estados Unidos e Europa, o número de escolas técnicas ou institutos politécnicos é bem maior do que o de universidades.  No Brasil, pasmem, esses números são invertidos.  Há uma faculdade em cada esquina, já escolas técnicas, essas são escassas e, quando existem, pecam em estrutura laboratorial e qualidade de ensino.  

A falta de uma regulamentação para a área profissional de TI também prejudica bastante a competição entre os profissionais, legando ao mercado uma auto-regulamentação sem controle, ao sabor de interesses localizados do setor empresarial.  Não há exigências de qualificação como há nas áreas da Engenharia, por exemplo, ou na área de Segurança do Trabalho.  

Hoje, o empregador de TI não se vê obrigado a investir em capacitação de seus colaboradores, deixando essa tarefa a cargo dos próprios profissionais que se esforçam para obter uma certificação internacional como Microsoft, Cisco, PMI, entre outras.  Como vemos, apagão existe, mas o problema não está na livre iniciativa empreendedora, mas na falta de políticas públicas claras que venham a valorizar a figura do informático, bem como forçar as instituições de ensino a formar profissionais mais afinados com as necessidades das empresas brasileiras.

LG – Considerando que cada vez mais se exige do profissional de TI uma visão mercadológica e gerencial, qual seria a melhor forma de começar a carreira: entrando em uma empresa de médio ou grande porte, já estruturada, ou montando seu próprio negócio?

David Stephen: Esta não é uma pergunta muito fácil de responder.  Qualquer resposta não passará de uma opinião pessoal.  A minha, por exemplo, é de que um profissional deve sim trabalhar em uma grande corporação antes de se arvorar a ter seu próprio negócio. Quanto maior e mais bem organizada for a corporação, melhor para o legado de conhecimento desse futuro empresário.  

Eu, por exemplo, antes de pedir demissão para montar minha primeira empresa, trabalhei em duas: uma de médio porte, de natureza privada, e outra pública. Ambas na área de TI. Isso me deu uma visão bastante ampla e lúcida sobre o que eu deveria fazer quando tivesse minha própria empresa.  Causei muita estranheza nas pessoas quando pedi demissão de uma empresa pública para me aventurar em um negócio do zero.  As dificuldades foram muitas, mas após 15 anos aquela pequena empresa havia se transformado em uma das mais respeitadas instituições universitárias tecnológicas do País, a Unibratec.

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Leia a entrevista diretamente no Portal da MaisTI aqui.

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